Portal Personare: Quais são as queixas mais frequentes das mulheres em relação à carreira?
CF: Tenho ouvido nas sessões de Coaching que está havendo um movimento em busca do equilíbrio no uso do tempo, entre trabalho, família e cuidar mais de si, buscando aumentar a qualidade de vida. Encontro menos mulheres atualmente que “só trabalham”, as workaholics 100%. Esse caminho nos levou a hipercompetitividade, aumento do stress, consumo desregrado de medicamentos, isolamento e ao narcisismo, enquanto muitas vezes não trouxe o retorno financeiro desejado. Ele interessa mais aos donos de empresas do que à própria funcionária. Afinal, quantas mulheres conhecemos que ganham os mesmos salários de altos executivos? Penso que no futuro o número de homens e mulheres brasileiros ganhando salários a partir de cinco dígitos irá se igualar, mas o preço a pagar está parecendo alto demais para nós, que ainda somos desigualmente responsáveis pela casa e cuidados com os filhos. Algumas já estão se questionando e dizendo “Não” a isso.
Portal Personare: Por que você acha que as mulheres tem queixas nessa área da vida?
CF: As queixas que ouço em coachtório são principalmente pela não valorização de seus esforços, o cansaço extremo e a incapacidade de manejar tanto stress sem adoecer ou estar ausente para os filhos. Outra queixa é sobre a luta insana por resultados financeiros no mercado de trabalho, o que precipita muitos conflitos internos, transformando as organizações em ambientes nocivos. Quinze minutos de ginástica laboral por dia podem amenizar a nocividade, mas podem também “tapar o sol com a peneira”. Não é incomum ouvir “Eu não aguento mais aquele lugar!” Significa que a pressão está superando largamente as habilidades disponíveis para a pessoa vencer os conflitos. Precisamos “acordar” para o fato que de vestir a roupa de heroínas é, ainda, um resquício do discurso do patriarcado agindo sobre nós. Mulheres menos influenciadas por esse discurso são mais colaborativas, amigáveis, confidentes e se fortalecem distribuindo as obrigações e os méritos também. Além disso, conseguem preservar e valorizar mais sua feminilidade, tendo mais “senso de identidade”, o que aumenta sua sensação de bem-estar, de pertencer, e ainda reduz o stress.
Portal Personare: Como você acha que esse tipo de insatisfação pode afetar negativamente a vida profissional dessas mulheres?
CF: Sim. O que eu vejo como mais grave é que a mulher está constantemente em busca do novo emprego (ou atividade) por não aguentar tanta insatisfação, ou seja, não desenvolve um trabalho consistente numa mesma organização, o que poderia criar sua reputação no mercado e, no longo prazo, fazê-la ganhar mais. Uma carreira sustentada a partir de muitas atividades diferentes para várias organizações – a não ser que a mulher trabalhe em consultoria - dificilmente irá trazer aprendizado e desenvolvimento das próprias competências e habilidades. Quando não se gera habilidade, não se sustenta uma reputação. É preciso tempo para isso e ninguém está mais conseguindo engolir a própria insatisfação. Quanto mais jovem é a mulher, mais isso é verdadeiro, já que a Geração Y (e a Geração X que logo estará nos bancos de estágios) prefere ser “multitarefa” e não teria pudores em trocar de emprego três vezes por ano.
Portal Personare: As mulheres ainda se sentem subjugadas no ambiente de trabalho?
CF: Não observo estarem subjugadas nas grandes cidades. Mal remuneradas, sim. No entanto, não seria a carga excessiva de atividades que nós “temos que dar conta” um tipo mascarado de subjugo? Principalmente se ganhamos mal por isso? É difícil dar um panorama “Brasil”, pois na maioria das cidades, mesmo a mulher que sai diariamente para trabalhar e traz o salário para pagar as contas, é esperada em casa no fim do dia para fazer e/ou servir o jantar. A mentalidade de igualdade existe apenas nas grandes cidades. O movimento mais interessante que observo é o das classes C e D, em que isso está mudando, pois a mulher é mais fortalecida pela identidade do grupo, absorvem novos valores e exigem seus direitos, que elas aprendem nas associações de moradores, grupos de apoio a mulheres, etc. Somamos a isso que elas já são provedoras e a maioria vive sem apoio de marido, segundo dados estatísticos. A mulher de classe rica sempre teve alternativas a ser subjugada, pois se estava estressada demais, combinava com uma amiga uma viagem de compras para Paris. Existem mais paliativos quando a conta bancária está recheada. Quem está sofrendo mais para mudar isso, na minha escuta, é a classe média, em que as mulheres ainda vivem subjugadas - não mais ostensivamente pelo homem - mas por seus próprios valores antiquados, fantasias de onipotência e de encontrar o príncipe encantado.
Portal Personare: Existem muitos conflitos entre a vontade de crescer na profissão e o lar?
CF: Sim, muitos conflitos. Crescer na profissão ainda vem banhado de culpa para as mães. Incrível como ser “carreirista” é bem visto quando se é jovem e passa a ser altamente condenável quando se tem filhos. A própria família olha com olhos retorcidos de condenação as extensas horas passadas em reuniões, projetos e viagens de trabalho. Esse dilema ouvimos de quase todas as mães que procuram o coaching. As que não sofrem tanto esse conflito são as que conseguiram encontrar o caminho do meio, estabelecendo claramente para si as horas em que desejam trabalhar, as horas que querem dedicar à família e as horas que querem cuidar de si, sendo esse terceiro elemento o que eu considero como a “novidade” nisso tudo. Sinal de que estamos começando a ocupar um lugar como indivíduos que cumprem suas obrigações, pagam impostos e, portanto, tem direitos também, assumindo mais nosso prazer.
Portal Personare: Na sua opinião, o que as mulheres devem fazer para minimizar os desafios na carreira e ter mais realização na vida profissional?
CF: Investir em si – sempre! Não se isolar. Estudar. Questionar suas verdades e pedir ajuda para isso. Descobrir quais são seus potenciais (através de testes de perfil ou coaching) e trabalhar duro para desenvolvê-los, com a técnica que for mais prazerosa para si. Quando utilizamos todas as nossas habilidades ganhamos mais autoestima para encarar os desafios de frente, mais resiliência e capacidade de medir as consequências dos nossos atos. Aumentamos nossa responsabilidade por nossos feitos e conquistas. Enquanto o “bicho papão” da carreira for mais forte que nós, sempre sairemos perdendo. Nosso duplo X tem que falar mais alto, nossas respostas estão no nosso lado feminino. Ainda não há androginia possível no mercado de trabalho. E acreditar nisso foi o que mais nos confundiu nos últimos quarenta anos.